Obs. Texto sem nexo, sem gênero, sem qualidade, sem nada. Apenas um quase-conto, quase-crônica, projeto de poesia que precisava ser escrito, que precisava ser postado. Apenas um punhado de pensamentos quase-soltos presos a um tempo no espaço.
Quase parada, quase em movimento, em uma dança de nome ainda indefinido. Apenas fingindo acompanhar a batida da música, permitindo que a semi-escuridão esconda o quão avidamente ela o devora com o olhar. Sentindo-se tão perdida, sabendo que não pertence a nenhum lugar.
Apenas observa, sentindo o tempo passar escorrendo entre seus dedos de longas unhas vermelhas (tão comuns ao mundo, tão distantes de si mesma). O tempo passa enquanto se esgotam suas chances de fazer de sua noite algo melhor que outro arrependimento. E ela sente o próprio mundo girar, enquanto um novo sol se prepara para nascer.
Mas a dor toma seus pés desabituados àquela estranha vida de noite repleta de luzes coloridas, onde não há lua nem estrelas. Talvez note que o mundo acaba lentamente. Mas nada importa como a maneira em que poderiam queimar. Não enquanto o tempo ainda contar.
Despertando-a de um mundo-quase-paralelo vêm as palavras tão parecidas com as construídas em seu diálogo mental. Todo o universo ao menos uma vez colaborando ao seu favor. A menina-mulher tem todo o mundo a seu dispor, mas não tem a si mesma. As palavras quase decoradas não saem, perde-se em palavras comuns e não planejadas. Palavras não poéticas, palavras tímidas e erradas.
E o mundo desaba, sua noite acaba antes que o sol possa seus cabelos desalinhados tocar. Seu anjo, mortal e pecador, desaparece entre a multidão imersa na noite e na não-poesia. Sem volta, sem uma doce despedida.
Para a jovem vampira a noite é apenas poesias, brigadeiro e filmes de cavaleiros em batalhas estelares. É apenas incompreensão e arrependimento. Mais uma vez a noite acaba e o mundo continua sem um final digno de Hollywood. Enquanto em algum lugar lá fora a lua cheia brilha para os que se dão ao luxo de confessarem-se apaixonados.
Em uma década passada, em um belo dia de céu azul e nuvens brancas de formas engraçadas a refletir tortuosamente o mundo, há uma criança na janela de uma casa. Uma janela comum, uma casa comum, uma rua comum. Nada em especial, exceto pelo olhar sonhador da criança na janela. Uma garota, cabelos claros e revoltos, indecisos entre cachos e fios lisos. Quatro anos de idade recém-completos e toda uma vida de escolhas diante de si.
Mas o que uma criança observa na janela em um dia tão belo para subir em árvores ou inventar um novo esporte? A resposta não poderia ser mais simples: observa outras crianças. Rostos jovens a interromper a quietude da rua com suas conversas e risadas, apenas o fim de outro dia de aulas.
A escola! É a escola que a garota observa através de cada uniforme, de cada mochila, de cada sorriso. E a menina sorri encantada. E olha para a mãe não muito distante com uma pergunta simples demais para uma criança:
- Mãe, quando vou para a escola?
O dia chegou, a eternidade de espera passou e foi a escola, despreocupada, apaixonada pela vida. Assustando a própria mãe em sua ausência de medo. Não chorou, não quis voltar, não receou. Correu na direção da professora sem temer a ausência materna. E descobriu ali, naquela mulher sorridente e atenciosa, outra mãe. Não compreendia os colegas que hesitavam em deixar o colo dos pais para adentrar aquele mundo voltado para as crianças.
Com o tempo aprendeu: mudavam os colegas, os professores e até mesmo as escolas. Mas sempre ficariam lembranças guardadas com um carinho especial.
A garota cresceu, como é natural da infância, seus cabelos lentamente abandonaram os cachos e os dias nublados hoje lhe parecem mais agradáveis do que dias ensolarados. Contudo, a escola continua sendo um sonho agradável para se pensar em um fim de tarde com certo romantismo.
É claro, não se recorda de cada dia que passou, não se recorda de cada nome que conheceu, tampouco suas faces gravou. Mas é um pouco de cada pessoa que encontrou no caminho que percorreu. Lembra-se ainda de algum dia perdido no tempo do jardim de infância, quando a professora (a quem chamavam “tia”) explicava para a turma quando usar ‘m’ e ‘n’ nas palavras. Assim como recorda do colega que corria ao colo da mesma professora nos dias de tempestade.
Recorda-se dos amores e de momentos que gostaria de esquecer. As broncas de uma professora na terceira série e a preguiça de calcular tantos números tediosos enquanto poderia viajar pelos primeiros livros em que as figuras já não importavam tanto. Tem na memória o conteúdo de um livro de ciências da quinta série, e ainda guarda para si a sensação da descoberta ao ler cada capítulo que ousou adiantar, ansiosa demais para esperar que as aulas viessem.
Alguns nomes ficaram, como o da professora que tinha o mesmo nome de uma música que fazia sucesso naquele ano. Assim como não poderia esquecer-se do professor que amava o número 15 e que não falava somente em matemática, mas insistia em boas maneiras e trazia consigo sempre um sorriso contagiante. Outras faces marcaram pelo tempo, como a professora de artes que a acompanhou por quase toda uma vida escolar, e a professora de espanhol, que com o passar de cinco anos ainda trocava o nome dos alunos.
Vieram aqueles que ficaram pouco tempo e gravaram um pedaço de si no coração (ou na mente) da menina que aos 13 anos apenas tinha certeza de seu amor pelas palavras. O professor de geografia, cujas aulas insistem em ecoar na mente sempre quando seu conteúdo por algum motivo é relembrado. Memórias que vêm acompanhadas de um sorriso nostálgico que sente falta até mesmo de broncas que assustavam mesmo as mais desorganizadas turmas.
Descobriu amizades passageiras e outras que seriam eternas ainda que os caminhos da vida as separassem (afinal, amizades que se formam pela opinião comum em discordar de todos não podem ser tão simples). E também entre seus mestres encontrou tal sentimento de amizade. As professoras de português, sempre tão gentis, interessavam-se ao saber dos sonhos da menina e de sua paixão pelos livros. E plantaram na memória aqueles complexos trabalhos em equipe que a principio pareciam tediosos e acabaram por tornar-se apenas outra desculpa para ser feliz.
Entre uma aula e outra encontrava o universo paralelo dos livros a ignorar as leis da física (a qual ainda não decidiu amar ou odiar). Ali onde também havia aulas, mas seu material exigia caldeirões de estanho e um livro monstruoso para que fizesse poções imaginárias e cuidasse de criaturas mágicas. Mas eles estavam sempre presentes, os mestres que poderiam ser amigos a ensinar sobre a vida ou fingir-se de carrascos apenas para esconder o amor pelo que faziam.
Quando se cansava das regras da gramática e das leis da ciência encontrava a alegria de mergulhar na história. Submergia nas aulas (ainda que, por vezes, tediosas a outros olhos) com um sorriso espontâneo, como se realmente visse o império romano ruir diante do teatro improvisado moldado no cenário das salas de aulas. E sabia que a qualquer momento a história poderia transformar-se em literatura.
E claro, jamais poderia esquecer-se das aulas de biologia que a fizeram encontrar uma das respostas para aquela velha pergunta da infância: “O que você vai ser quando crescer?" A resposta estava ali, entre aquelas aulas da genética que a encantava e os acirrados debates sobre o surgimento da vida. E contava os dias para que chegasse a próxima aula, para encontrar alguma surpresa que os livros não pudessem contar, achando que tudo ainda era pouco.
Uma das respostas, pois não se contentava com apenas uma. Já conhecia a outra desde um tempo em que as memórias confundiam-se em sonhos, mas a reencontraria nas aulas de literatura com o passar de cada ano. Na epifania de um professor apaixonado por Clarice Lispector, nas aulas daquele que lhe explicou que a arte nem sempre é bela, às vezes é apenas chocante, ou no discurso quase poético de certo mestre encantado pela poesia de Pessoa e Drummond.
E sabia, não poderia ter apenas uma resposta enquanto não provasse de ambas. A contragosto, o fim da jornada a alcançava. Não antes que um professor rigoroso lhe ensinasse que é possível obter uma nota máxima mesmo em matemática, e que um professor amigo (ou seria amigo professor?) a ensinasse a gostar da química que por dois anos tão intensamente odiara.
Continuou sonhando, continuou estudando e buscando o caminho certo. Redescobriu a língua inglesa que um dia ousara dizer odiar. Através de olhos quase tão jovens quanto os seus viu um pequeno pedaço das belezas do mundo que sonhava encontrar. Aprendeu que a maneira de ver o mundo não depende apenas do olhar, mas também da língua através da qual poderia se pronunciar.
Em seus dezoito anos vira tanto, mas tudo o que vira era quase nada. E lhe disseram: “Se escolher essa profissão acabará sendo professora.” Como uma praga ameaçavam. Mas a garota que um dia sonhara em ir para a escola sorria despreocupada, afinal ensinar também é arte!
Obs. Inspirado em acontecimentos e pessoas reais, por mais distantes que os fatos estejam na memória da autora. A imagem, contudo, foi retirada do site Deviantart e é nada menos que a representação de um professor que marcou e continua marcando muitas infâncias e adolescências em todo o mundo.
Por que, quase sem discordar, aprendemos a aceitar? Por que de repente todos resolvem que precisam crescer ao menos um pouco? E então a ciência e a tecnologia são tudo no mundo. O que valem os sentimentos afinal?
De repente o que não era tão legal virou interessante. E o resto da vida é detalhe, é só o resto. O que era comum ficou estranho. E o esquisito é normal. Como é confuso crescer e ainda mais complexo amadurecer.
Não há mais tempo.
Afinal, o que é crescer? É fingir ser simpático? É sorrir querendo chorar? É ser indiferente querendo gritar (de alegria ou tristeza)? É impor limite aos próprios sonhos?
Por que tentamos resolver problemas que não existem? O problema não é a forma ou a fórmula do sistema, é apenas o sistema. O problema é sermos humanos, é pensar que pensamos.
Não questione.
Não há problema na ciência, nos códigos ou nas linguagens. Ou talvez haja, mas não é este o problema em questão.
Estude, cresça, seja independente. Tenha dinheiro. Tenha poder.
Por quê? Os dados não permitem sonhar. Os gráficos indicam a maldade do mundo (de leste a oeste), a crueldade dos números e das opiniões. Contra provas não há como lutar. Contra o conhecimento abandonado não há armas que se possa usar.
Apenas sorria.
Não é permitido crescer e viver.
Jogando num mundo de verdades controversas. Ou apenas sobrevivendo. De imperfeições evidentes e maldades mal mascaradas. Somos obrigados a sorrir sem felicidade. Fingir que tudo que nos gritam é a única verdade, e fingir que não gritam.
Não há tempo. Aceite.
Não encontro o caminho de volta neste labirinto de ilusões paradoxais. Neste labirinto de escolhas pré-decididas.
Por quê?
As respostas podem ser simples, mas ninguém quer saber.
Dedico à Érica, que leu primeiro e a todos que estão passando, passaram ou passarão por essa época de vestibulares. x.x
Bela e poderosa soberana. Devastadora e salvadora. Tantos adjetivos para descrevê-la. Dona de tantas formas e tantos nomes. Às vezes pode também ter gostos e cores, nem sempre agradáveis. Tu és deusa e rainha deste planeta que os homens tolamente pensam comandar.
Seu nome?
As lágrimas derramadas pelo céu ganham o nome de chuva ou tempestade, que alimenta a terra e assusta pescadores. O calor a transforma no vapor das nuvens e das brumas, que pode vir de lagos, rios e oceanos, sendo o ciclo infinito que sustenta a vida. O frio faz de ti gelo e neve, mais uma vez bela e mortal. Quem a chama apenas de água não conhece teu verdadeiro poder.
Mas nunca fora tão bela e devastadora como naqueles anos da juventude do mundo. Uma época em que só os céus podem se recordar atualmente, pois a terra não é a mesma de outrora, embora as rochas sejam as mesmas. Além de tu, que é oceano e tempestade, somente o céu presenciou o medo e o pavor estampado em cada face daquele povo.
Eles sempre te viram como mãe, como fonte do alimento e da vida. No entanto, as lendas falam da tua traição para com seu povo. As lendas contam sobre o mar que destruiu a mais inteligente civilização de todos os tempos. Há muitas lendas sobre o mar, mas nenhuma delas sobreviveu por tantos séculos como Atlântida.
Por muito tempo alimentou e cuidou do teu povo, e nenhum outro foi tão grato como aquele. E por muitas auroras as sereias fizeram coro à tua música nas praias do litoral. Como era encantadora a juventude do mundo! Até hoje o céu lamenta a ausência dos sábios dragões entre suas nuvens.
Mas então vieram aquelas que os homens chamam de primeiras civilizações. Um erro. Primeira foi apenas uma, a única e grandiosa Atlântida. E aquelas que surgiram mais tarde julgaram erroneamente tuas forças e até pensaram que poderiam controlar-te. Somente os atlantes souberam pedir para navegar sobre teus mares e matar a sede em teus rios.
Foi absurdo.
Foi egoísta.
Foi magnifico.
Mas tomaste tua decisão.
Transformaste em lenda para toda a humanidade de todas as eras a história de teu povo. Tu fora o palco e a protagonista do teu próprio teatro. O céu e a terra foram somente figurantes.
Veio dos céus, veio do mar e dos lagos. Estava também no ar e nas cavernas subterrâneas. E era apenas uma.
A terra tremeu e o céu gritou com seus trovões. Era a noite mais assustadora que qualquer ser vivo poderia presenciar. Era a noite que as profecias mais antigas já previam e que a lendas de muitas eras ainda irão comentar.
Tua fúria foi tão grande que desfigurou a terra e deslocou rochas, que juntou lagos e mares e elevou montanhas. Em meio as tuas ondas desapareceu aquela que outrora foi rica e mágica. Para tuas profundezas levou a Atlântida com seu povo, com seus dragões, com sua magia.
E teu maior segredo é ter poupado a vida daqueles que sempre te amaram e que sempre foram teus filhos. Pois nem o céu tem certeza de que tu que ainda guarda em teus mares o teu povo. Em tuas profundezas o povo atlante habita submerso. E as sereias por vezes cantam na superfície relembrando a juventude do mundo.
Esconde tão bem teu tesouro que outros humanos com suas maquinas infantis, jamais o encontrarão. E lá viverá Atlântida até o fim dos tempos, com seu povo, suas sereias e seus dragões.
Até que o fogo vindo do céu devore sem piedade as outras civilizações.
N/A: Esse é o primeiro conto original que posto (embora não seja o primeiro que escrevo). Por estar relacionado ao nome do blog resolvi que deveria ser o primeiro post aqui. Aceito comentários e críticas! =)
“Eu descobri em mim mesmo desejos os quais nada nesta terra podem satisfazer, a única explicação lógica é que eu fui feito para um outro mundo.” C. S. Lewis